Violência contra a mulher: até quando histórias como a de Bárbara Damião vão se repetir?

A morte da advogada Bárbara Damião Costa, de 41 anos, em Campos dos Goytacazes, reacendeu um debate que há anos desafia o Brasil: até quando mulheres continuarão sendo vítimas da violência dentro ou fora de seus relacionamentos?

Bárbara foi assassinada na noite desta terça-feira (21), na Rua Poeta Hermes Fontes, no bairro da Penha. Segundo as investigações, o principal suspeito é o ex-marido, Rogério Conceição da Costa, de 44 anos, que foi encontrado morto cerca de uma hora depois. A principal linha investigativa aponta para um caso de feminicídio seguido de suicídio.

O caso ganhou ainda mais repercussão porque, segundo informações, Bárbara havia buscado ajuda recentemente. A advogada registrou um boletim de ocorrência contra o ex-companheiro no último sábado (18), por lesão corporal, e solicitou medidas protetivas de urgência.

Mesmo após procurar proteção, a vítima acabou tendo a vida interrompida. A situação evidencia um dos maiores desafios no combate à violência de gênero: garantir que a denúncia seja acompanhada de uma rede de proteção capaz de impedir que ameaças e agressões terminem em morte.

Brasil registra aumento nos casos de feminicídio

A tragédia ocorrida em Campos acontece em meio a um cenário nacional de crescimento dos casos de feminicídio.

De acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, 399 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil entre janeiro e março de 2026. O número representa que, em média, uma mulher foi assassinada a cada 5 horas e 25 minutos no país durante o primeiro trimestre do ano.

O levantamento aponta que 2026 apresenta, até o momento, o maior número de feminicídios registrados em um primeiro trimestre desde o início do monitoramento, em 2015.

Na comparação com o mesmo período de 2025, houve uma alta de 7,55% no número de vítimas. Em uma década, o cenário se tornou ainda mais grave: os registros saltaram de 125 feminicídios no primeiro trimestre de 2015 para 399 casos nos primeiros três meses de 2026.

O volume atual supera inclusive os registros dos primeiros trimestres considerados mais críticos, como 2022, quando foram contabilizadas 372 vítimas, e 2024, com 384 casos.

2025 terminou com recorde de feminicídios

No ano passado, o Brasil também registrou uma marca preocupante. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, foram contabilizados 1.470 feminicídios em 2025, o maior número anual desde o início da série histórica.

O total superou os 1.464 casos registrados em 2024, que até então representavam o maior número já contabilizado.

Os dados são compilados pelo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), com base nas informações enviadas pelos estados, Distrito Federal, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal.

Janeiro foi o mês mais violento de 2026

Entre janeiro e março deste ano, janeiro concentrou o maior número de feminicídios, com 142 vítimas registradas. Em fevereiro, foram contabilizados 123 casos, enquanto março terminou com 134 mulheres assassinadas.

São Paulo lidera o ranking nacional em números absolutos no primeiro trimestre de 2026, com 86 vítimas de feminicídio. Na sequência aparecem Minas Gerais, com 42 casos; Paraná, com 33; Bahia, com 25; e Rio Grande do Sul, com 24.

Acre e Roraima não registraram feminicídios no período, segundo os dados divulgados.

Um ciclo de violência que muitas vezes termina em morte

Especialistas alertam que o feminicídio geralmente representa o ponto final de um ciclo de violência que pode ter começado muito antes.

Ofensas, controle excessivo, isolamento da vítima, ameaças, perseguições e agressões são sinais que precisam ser observados. Em muitos casos, a mulher demora a denunciar por medo, dependência emocional ou financeira, preocupação com os filhos ou falta de apoio.

No caso de Bárbara, a denúncia feita dias antes do crime reforça a importância de discutir como aprimorar os mecanismos de proteção às mulheres que conseguem romper o silêncio e buscar ajuda.

Lei Maria da Penha trouxe avanços, mas desafios permanecem

Criada em 2006, a Lei Maria da Penha ampliou os instrumentos de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica, permitindo medidas como afastamento do agressor, proibição de contato e outras determinações judiciais.

Apesar dos avanços, casos como o da advogada em Campos levantam questionamentos sobre a necessidade de fortalecer a fiscalização dessas medidas e garantir respostas rápidas quando uma mulher está em situação de risco.

O enfrentamento à violência contra a mulher exige uma atuação conjunta entre Judiciário, Ministério Público, forças de segurança, serviços de assistência social e toda a sociedade.

Até quando?

A pergunta permanece diante de cada novo feminicídio: até quando mulheres precisarão perder suas vidas mesmo após pedirem ajuda?

Bárbara Damião era advogada, servidora da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, formada em Direito pela Uniflu e estudante do Instituto Federal Fluminense (IFF) Campos Centro.

Era uma profissional, estudante, mãe e filha, com uma história interrompida pela violência.

Cada feminicídio representa mais do que uma estatística. São vidas perdidas, famílias destruídas e crianças que crescem sem a presença de suas mães.

O combate à violência contra a mulher passa pela denúncia, pela proteção efetiva das vítimas e, principalmente, pela mudança de uma cultura que ainda permite que tantas mulheres sejam vítimas de agressões dentro de seus próprios relacionamentos.

Mulheres vítimas de violência ou que estejam em situação de risco podem buscar ajuda pelo telefone 180, canal nacional de atendimento à mulher, ou pelo 190, em casos de emergência.

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